Lendo a reportagem da revista Época dessa semana
(03/03/2008,n.511) sobre "o poder da tristeza", tomei a liberdade de postar algumas reflexões pessoais sobre o tema. O conteúdo central da reportagem enfatiza que o estado de tristeza (até certo nível, a meu ver) pode ser benéfico à pessoa. Em um trecho da reportagem os autores apontam o uso indiscriminado de antidepressivos como o prozac, já venerado por muitos como a "pílula da felicidade". É também citada a comercialização de artigos como os livros de auto-ajuda (não tirando o seu mérito) com informações para se ter uma vida feliz, mais próspera, etc. Sou a favor de certas filosofias de vida, que pregam a força do pensamento positivo, a lei da atração, dentre outros, por acreditar em nosso potencial de atrair situações que estejam de acordo com as vibrações que transmitimos.
O que está em questão, porém, é que ninguém é feliz por completo, assim como ninguém é feliz ou infeliz o tempo todo. Refletindo bemmmm....... a tristeza é até necessária; é um momento em que nos isolamos dos outros, nos "fechamos" em nós mesmos, olhamos para dentro de nós. Vejo isso como uma forma de auto-conhecimento, podendo nos levar à elaboração de estratégias para alcançar um equilíbrio satisfatório em suas dimensões física, mental e espiritual. A maioria das pessoas, salvo exceções, ambiciona prosperidade, auto-estima elevada, amor, qualidade nos relacionamentos, saúde, dentre outros. Porém, valorizamos tudo isso ao experimentarmos estados e sentimentos antagônicos, sem os quais não teríamos base para discernir o que nos proporciona ou não o prazer. E mais... um ponto interessante é pensar que o estado depressivo (lembrando que não faço aqui uma apologia à tristeza) pode impulsionar o processo criativo.
Basta observar a trajetória de figuras ilustres como o gênio musical Bethoven, o filósofo Nietzche, os escritores Fernando Pessoa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, o diretor de cinema Woody Allen, artistas como Janis Joplin, Jim Morrison, Elis Regina.... Ihhh, é uma lista interminável! O que eles teriam em comum? Um histórico de transtornos mentais como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia... Há um tópico curioso na reportagem, que é exatamente assim: "É durante as fases de depressão que surgem os questionamentos que despertam a criatividade da pessoa atormentada." Hummm, para mim faz sentido. Pensando nos belíssimos poemas do Fernando Pessoa (ai, que injustiça não colocar também com exemplo a Clarice Lispector, o João Cabral de Melo Neto!), teria ele vivenciado experiências dolorosas para chegar ao auge de sua expressão criativa? Ele já mencionou que "o poeta é um fingidor"... Será mesmo? Não estaria, por meio dessas palavras, tentando dissimular a sua própria dor? Tais exemplos, se é que posso chamá-los assim, nos permitem reelaborar o sentimento de tristeza, dando a ele significações diferentes do que convencionalmente costumamos dar, como o fato de associá-lo à fraqueza. Quem sabe pensando assim poderemos nos sentir menos culpados se estivermos tristes? Até porque, como dizia o ilustre poeta desconhecido, "tudo passa"!
Pensando no caráter temporário das coisas, vem à tona a imagem das bolhas de sabão. Algumas têm vida mais curta em comparação a outras, todas elas são frágeis, passageiras, porém todas elas são lindas, brilhantes, agitadas, multicores... A felicidade pode ser comparada a algo Mais que isso: tem mais porte, presença, mas é passageira. A tristeza também. É claro que como todo ser humano normal e falho dou preferência à felicidade! Mas, voltando, penso que não há nada melhor do que buscarmos um equilíbrio interior, construindo uma fortaleza interna que nos permita vivenciar com sabedoria os "altos" e "baixos" da vida, impulsionando a novas experiências e evidenciando a nossa condição dialética de seres em movimento constante.
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